Em Qingdao, na China, duas máquinas de quatro patas entraram para o efetivo do corpo de bombeiros. São o modelo B2 da Unitree, a fabricante de Hangzhou que ficou conhecida pelos cães robóticos, adaptado ao combate a incêndios: um canhão que atira água ou espuma a 60 metros e debita 40 litros por segundo, capacidade para subir degraus de 40 centímetros e escadas inclinadas a 45 graus, e um sistema de aspersão que serve apenas para arrefecer o próprio robot enquanto tudo à volta arde.
Há dois momentos em que ser bombeiro pode matar: entrar no fogo e tirar de lá quem ficou preso. É exatamente nesses dois momentos que a robótica com inteligência artificial está a chegar, e é aí que ela mais vale.
No combate ao fogo
A Unitree não vende um robot, vende uma base com módulos: câmara panorâmica de 360 graus, câmara biespectral (junta imagem térmica e ótica para encontrar pessoas no meio do fumo), sensor de gases, braço robótico, rádio próprio para o caso de a rede cair, e um soprador para fogos florestais que extingue cortando a ligação entre a chama e o combustível em vez de a afogar. Segundo a empresa, as juntas da versão de incêndio rendem mais 170% do que as do B2 comum, e a bateria troca-se sem quebrar a estanquidade do corpo.
Vídeo: o Unitree B2 a atacar um fogo com o canhão de água (Mashable).
Não é caso único. Em fevereiro de 2025, o X30, da DEEP Robotics, também de Hangzhou, passou a ser usado pelos bombeiros de Changsha, na província de Hunan, no que foi noticiado como a primeira vez que um quadrúpede de fabrico chinês integrou uma equipa de socorro local. Pesa 56 quilos, opera entre 20 graus negativos e 55 positivos, aguenta mais de 10 quilómetros e vai levantando um mapa tridimensional do sítio onde entra, que é precisamente o que falta a quem está cá fora a decidir.
No salvamento
Tirar uma pessoa inconsciente de dentro de um edifício é a parte que mais expõe o socorrista, e é aqui que aparecem as máquinas mais surpreendentes. Em março de 2025, em Pequim, a Haishen, do grupo estatal chinês de construção naval, apresentou com a DEEP Robotics dois robots de socorro médico. O de rodas transporta um posto de emergência portátil com sete funções: ventilação, monitorização, perfusão, ecografia, desfibrilhação, reanimação cardiopulmonar e oxigénio. O quadrúpede leva a maca com o ferido no dorso e, durante o transporte, presta-lhe socorro com o equipamento suspenso dos dois lados.
Vídeo: o quadrúpede que transporta a maca com o ferido (CGTN).
A ideia não é nova. O Robocue, do corpo de bombeiros de Tóquio, existe desde 2009: uma máquina de lagartas, parecida com um pequeno tanque, que gira sobre o próprio eixo, recolhe do chão um corpo imóvel e o puxa para cima de si com um tapete rolante, sem que nenhum socorrista tenha de se expor. Dezasseis anos depois, o que era um protótipo japonês é hoje um mercado com vários fabricantes.
Vídeo: o Robocue, dos bombeiros de Tóquio, a recolher uma pessoa do chão.
O que isto poupa a quem lá entra
Desde 1980 morreram 257 bombeiros portugueses em serviço, segundo a Liga dos Bombeiros Portugueses, 21 deles apenas entre 2020 e 2025. Em 2025, a Liga contabilizou 213 feridos, e as duas mortes registadas até agosto desse ano foram em acidentes de viação, longe de qualquer incêndio. Este mês, os incêndios de Vouzela e Setúbal deram dezenas de feridos em poucos dias, e só em Setúbal oito bombeiros foram retirados por exaustão.
Do outro lado do Atlântico, o retrato repete-se. A NFPA, a associação americana de proteção contra incêndios, contabilizou 62 mortes em serviço em 2024, e 40 dessas mortes, quase dois terços, tiveram como causa o esforço excessivo, com 30 ataques cardíacos.
Estes números dizem o que os vídeos não mostram: o que fere e mata bombeiros não é só a chama, é o esforço, o fumo, o peso, a exaustão e a estrada. Uma máquina que arrasta a mangueira até à frente do fogo, que aguenta 55 graus sem precisar de ar respirável, que sobe sete andares com o equipamento às costas e que recolhe o ferido do chão não tira o trabalho ao bombeiro, tira-lhe de cima a parte que o pode matar.
Nenhuma destas máquinas apaga sozinha um incêndio, nem substitui o julgamento de quem comanda a operação. Fazem outra coisa, entram primeiro, aguentam o que o corpo humano não aguenta e ganham tempo. E em combate a incêndios e salvamento, o tempo e a distância à chama são, muitas vezes, a diferença entre quem volta para casa e quem não volta.
Fontes: Unitree Robotics, New Atlas, Global Times, China Daily, TechCrunch, Liga dos Bombeiros Portugueses, NFPA.
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