No dia 16 de julho, a Comissão Europeia deu uma ordem à Google que muda aquilo que o teu telemóvel Android deixa uma aplicação ver e ouvir. A partir da próxima grande versão do sistema, o Android 18, e o mais tardar até 1 de agosto de 2027, a empresa terá de abrir a assistentes de inteligência artificial concorrentes o mesmo acesso ao aparelho que hoje reserva ao seu próprio Gemini, a câmara, o microfone, o que está no ecrã, uma palavra de ativação que dispara mesmo com o ecrã apagado, e a capacidade de comandar outras aplicações imitando toques.
A intenção é boa, e vale a pena dizê-lo sem rodeios. Durante anos a Google desenhou o Android para que o Gemini chegasse a estes recursos com uma facilidade que negava aos rivais, e obrigá-la a nivelar o terreno é o objetivo legítimo do Regulamento dos Mercados Digitais (o DMA, a lei europeia que trava os abusos das grandes plataformas). O problema não está na concorrência, está na conta que a acompanha, escrita desta vez em segurança, e quem a paga és tu.
O que a Google tem de abrir
Ao todo são onze funcionalidades do Android que passam a estar disponíveis para outros assistentes, desde a invocação por voz ao estilo do «Hey Google» até à leitura do que está no ecrã e à execução de tarefas dentro de outras aplicações em teu nome, como reservar um táxi ou sugerir a resposta a uma mensagem. Seis destas funcionalidades ficam abertas sem qualquer certificação. As outras cinco exigem que o assistente seja certificado por autoridades independentes, de forma gratuita.
Há uma cláusula que muda o equilíbrio todo, a Google fica proibida de exigir aos concorrentes padrões de segurança e integridade mais altos do que aplica a si mesma. A própria empresa avisou para o risco. Kent Walker, responsável de assuntos globais e diretor jurídico da Google, disse que a decisão «ameaça a segurança do dispositivo ao conceder a aplicações externas permissões sensíveis e poderosas», lembrando que hoje são os fabricantes de telemóveis a validar quem obtém esse acesso. Há aqui um interesse comercial óbvio, a Google não quer perder o seu jardim murado, mas o interesse não torna o aviso falso.
O acesso já foi atacado uma vez
E o receio não é abstrato. O Gemini, que já dispõe de todo este acesso, foi atacado numa demonstração através de injeção indireta de instruções, uma técnica em que o atacante esconde ordens dentro de conteúdo à primeira vista inofensivo, neste caso numa simples notificação, para que a assistente as cumpra como se viessem de ti. A empresa de segurança que o mostrou, a SafeBreach, fê-lo precisamente no tipo de canal que estas regras vão agora abrir a terceiros.
No centro da decisão há uma troca silenciosa. Passamos de um guardião único, a Google, com todos os seus defeitos e o seu conflito de interesses, para muitos guardiões de qualidade desigual, validados por certificadoras que ainda nem conhecemos. O sensor mais íntimo que carregas contigo, o que te ouve o quarto e te vê a cara, deixa de depender de uma decisão e passa a depender de várias. Mais escolha para o utilizador é, ao mesmo tempo, mais superfície para o atacante.
Convém saber que isto não se decide em Lisboa. A concorrência digital é competência exclusiva de Bruxelas, por isso nem o Governo, nem a ANACOM, nem a Assembleia da República podem travar ou renegociar a medida. Portugal participa apenas a título consultivo, através do comité previsto no artigo 50.º do DMA, sem direito de veto. O que vai mudar no teu telemóvel foi decidido acima da tua fronteira, e chega a tua casa quando o Android 18 chegar.
Como te proteges
Enquanto a mudança não chega, e sobretudo quando chegar, há hábitos que continuam a valer:
- Revê as permissões de câmara e microfone das tuas aplicações, e retira o acesso a tudo o que não precisa mesmo dele.
- Quando um novo assistente de inteligência artificial te pedir para o tornares o predefinido, trata o pedido como tratarias a instalação de um programa novo, não como uma formalidade.
- Desconfia dos assistentes que insistem em correr sempre em segundo plano ou com o ecrã apagado, porque é aí que o acesso passa despercebido.
- Mantém o sistema atualizado, já que é o Android que faz cumprir os limites que cada aplicação tem de respeitar.
A Europa acaba de te dar mais escolha sobre quem responde quando dizes «assistente». O que ninguém te vai perguntar em voz alta é a segunda metade da decisão, a de saber a quem confias, a partir de agora, a câmara, o microfone e tudo aquilo que aparece no teu ecrã.
Fontes: The Hacker News, Comissão Europeia.
#StaySafe
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