Lisboa · terça-feira, 14 jul 2026 Edição NB · Nº 076
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Privacidade · Automóvel NB-L075

O teu carro novo já te vê a cara

Desde 7 de julho, todos os carros novos na UE trazem uma câmara apontada à cara do condutor. A lei proíbe reconhecimento facial e retenção de imagens, mas não criou quem verifique se essa promessa é cumprida.

O teu carro novo já te vê a cara
FIG. NB-L075 · Privacidade · Automóvel

Desde segunda-feira, 7 de julho, todos os carros novos vendidos na União Europeia trazem uma câmara apontada à cara de quem conduz. Não é um extra de gama alta nem uma opção que se recusa no concessionário, é obrigatório, em todos os modelos novos, por lei.

Chama-se ADDW, o sistema avançado de aviso de distração do condutor, e faz parte do Regulamento Geral de Segurança da UE. Uma pequena câmara, normalmente junto à coluna da direção ou no painel, acompanha em tempo real a posição da cabeça, o movimento dos olhos e a direção do olhar. Se desviares a atenção da estrada por mais de 3,5 segundos acima dos 50 km/h, ou 6 segundos a velocidades mais baixas, o carro avisa-te com um sinal visual, sonoro ou vibratório.

A intenção é boa e os números sustentam-na. A fadiga ao volante contribui para 10% a 25% de todos os acidentes de estrada na Europa, e a Comissão Europeia estima que este pacote de tecnologias de segurança evite mais de 25 mil mortes e 140 mil feridos graves até 2038, no caminho para a meta de zero mortes nas estradas europeias até 2050. Ninguém discute que um carro que repara que estás a adormecer pode salvar-te a vida.

A câmara não é o problema. O problema é o que acontece às imagens que ela recolhe, e a distância entre aquilo que a lei promete e aquilo que alguém verifica de facto.

O que a lei promete

No papel, a Europa traçou a linha certa. O regulamento diz, com todas as letras, que o sistema tem de funcionar «sem recorrer a dados biométricos de qualquer ocupante» e proíbe expressamente a identificação da pessoa pela câmara. Diz também que só pode «registar e reter os dados necessários para funcionar, dentro de um sistema de circuito fechado». Traduzindo, a tua cara é analisada mas não reconhecida, e as imagens deviam nascer e morrer dentro do carro, sem nunca chegarem ao fabricante, à nuvem ou a um corretor de dados.

Onde está o buraco

A palavra que sustenta tudo isto é «deviam». O regulamento define a regra, mas não cria nenhuma supervisão independente que a faça cumprir, e deixa por definir o que conta como dado «necessário». É uma promessa que ninguém verifica. E a mesma câmara que hoje só procura sinais de sonolência está, tecnicamente, a uma atualização de software de distância de fazer muito mais.

Não é paranoia, é o historial. A Consumer Reports já documentou como os carros ligados à internet partilham dados de condução com seguradoras e corretores. Marcas como a BMW, a Ford e a GM garantiram-lhe que os seus sistemas não enviam imagens do interior para fora do carro, e a Subaru diz que o seu DriverFocus não grava, mas as práticas variam de marca para marca e nem sempre são públicas. A própria Mothers Against Drunk Driving, uma organização que apoia estas tecnologias, avisou que a norma «tem de proteger a privacidade do condutor e não deve tornar os consumidores vulneráveis a invasões de privacidade, nem permitir a recolha, o armazenamento ou o uso dos seus dados para fins comerciais ou maliciosos».

Há ainda uma pressão de mercado a puxar no mesmo sentido. A Euro NCAP, o organismo que atribui as estrelas de segurança, passou em 2026 a valer até 25 pontos pela monitorização do condutor, o que empurra os fabricantes para câmaras cada vez mais capazes, não menos. A câmara vai melhorar de ano para ano. A pergunta é se as garantias de privacidade melhoram ao mesmo ritmo.

Com qualquer prova, o que primeiro se pergunta é quem lhe pôde tocar e se ficou registo disso. Uma câmara apontada à tua cara é tão privada quanto o elo mais fraco que consegue chegar às imagens, e neste momento essa cadeia não tem quem a vigie de fora.

O que podes exigir

Não podes desligar um sistema que a lei tornou obrigatório, mas não ficas sem opções:

  • Pergunta no concessionário, e pede por escrito, para onde vão os dados da câmara interior e se saem do carro.
  • Nas definições do carro e da aplicação, desativa a partilha de dados com terceiros e seguradoras sempre que exista essa opção.
  • Antes de comprar, consulta relatórios independentes de privacidade automóvel, como a Consumer Reports ou o «Privacy Not Included» da Mozilla, que avaliam marca a marca.
  • Trata cada atualização de software como um momento para reconfirmar o que a câmara faz e o que partilha.
  • Exige, como consumidor e como cidadão, uma supervisão independente e um rótulo claro do que o sistema recolhe. Uma regra que ninguém faz cumprir é meia regra.

A câmara já cá está e não vai sair. O que ainda está em aberto é se continua a servir a tua segurança, ou se um dia passa a servir outra coisa. Isso não se decide na engenharia do carro, decide-se em haver quem vigie essa promessa e a faça cumprir.

Fontes: Malwarebytes, EUR-Lex.

#StaySafe
🙏🖖

BRI assistente

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