‹ ARQUIVO NB-L073 · .log · 2026·07

O verão é época alta também para o burlão

O verão é época alta também para o burlão
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Nas férias, o telemóvel passa a fazer tudo: é o bilhete de avião, o mapa, a máquina fotográfica, o banco e a chave do alojamento. E é precisamente quando ele mais trabalha que menos atenção lhe prestas, porque estás de descanso, num sítio desconhecido, com pressa de chegar à praia.

Quem vive de enganar os outros sabe disto, e os números provam-no. Em maio de 2025, a Polícia Judiciária concluiu a investigação a uma rede que anunciava casas de férias que não existiam: 143 vítimas ouvidas, 150 mil euros de prejuízo e 20 arguidos, com os pagamentos das «reservas» a entrar por contas bancárias de terceiros aliciados para o efeito. A GNR, por seu lado, contava 2.344 furtos em residências até ao final de maio deste ano e voltou a avisar que o período de férias é o mais sensível, com Faro à cabeça dos distritos mais atingidos.

O padrão não é só nosso. No Reino Unido, as burlas de férias custaram às vítimas mais de 11 milhões de libras num único ano, e julho foi exatamente o mês com mais queixas. E a Airbnb, num alerta conjunto com a PSP e o Centro Nacional de Cibersegurança, contou cerca de 3.200 domínios de phishing criados num só ano para se fazer passar por ela.

A boa notícia é a mesma de sempre: não precisas de comprar nada. São dez gestos, e metade fazem-se antes de fechares a mala.

Antes de partir

  • Prepara o telemóvel para o pior. Liga o «Encontrar» (Find My no iPhone, Find Hub no Android), faz uma cópia de segurança e ativa as proteções antirroubo recentes: no iPhone, a Proteção de Dispositivo Roubado; no Android, o Bloqueio por Deteção de Roubo, que tranca o ecrã sozinho se alguém to arrancar da mão e fugir. É isto que permite localizar, bloquear ou apagar um telemóvel roubado, e nada disto se liga em retrospetiva.
  • Deixa a casa vigiada, de graça. A GNR e a PSP vigiam a tua casa enquanto estás fora, através do programa Chave Direta, na Operação Verão Seguro. Pede-se online em veraoseguro.mai.gov.pt, com pelo menos 48 horas de antecedência, sem qualquer custo.
  • Leva o teu carregador e uma power bank. Não pelo mito das tomadas USB armadilhadas dos aeroportos, de que nunca se documentou um caso real e contra o qual o telemóvel já se defende sozinho, perguntando antes de dar acesso aos dados. É porque um telemóvel sem bateria em terra desconhecida é o bilhete, o mapa e o banco mortos ao mesmo tempo.
  • Escreve dois números num papel. A linha de apoio do teu banco e a linha internacional de bloqueio de cartões (+351 217 918 780, 24 horas). Se o telemóvel desaparecer, os números de que vais precisar não podem desaparecer com ele.

Na viagem

  • As fotos podem esperar pelo regresso. Publicar a praia em tempo real é anunciar a quem quiser ver que a casa está vazia, e a GNR pede há anos que não se faça. O álbum aguenta uma semana, e os gostos chegam na mesma.
  • Multibanco com critério. Em zona turística, prefere as caixas dentro das agências bancárias, desconfia de peças soltas ou salientes no leitor do cartão, que podem ser leitores falsos postos lá para o copiar, e tapa sempre o PIN com a outra mão.
  • O wifi do hotel serve para quase tudo, menos para o banco. A internet mudou: hoje a esmagadora maioria dos sites vai encriptada, e o wifi público já não é o perigo que era. O risco real são redes falsas com o nome do hotel e páginas de acesso que pedem mais do que deviam. Se o portal do wifi te pedir uma palavra-passe tua ou um cartão para «dar acesso», pára e confirma o nome da rede na receção. Para o banco e outras contas sensíveis, usa os dados móveis, que tiram a dúvida de vez.
  • A tua reserva não se «confirma» por link. Há burlas a correr dentro das próprias plataformas de reservas: criminosos tomam conta da conta de um hotel verdadeiro e a mensagem chega-te na app ou por email, com as tuas datas e o teu nome certos, a pedir para «confirmares o pagamento» num link. A polícia britânica registou 532 queixas e 370 mil libras perdidas exatamente assim, entre 2023 e 2024. Não pagues nem confirmes nada fora da app oficial. Abre-a tu e verifica lá dentro; se houver mesmo um problema, está lá.

Se correr mal

  • Telemóvel roubado, ordem certa. A partir de outro aparelho, marca-o como perdido no «Encontrar», o que o bloqueia e suspende os cartões guardados, e troca a palavra-passe do email. Só depois trates do resto.
  • Cartão comprometido, liga já. O relógio joga a teu favor: comunicado o problema, o banco tem de repor o dinheiro das operações não autorizadas com rapidez, em regra até ao final do dia útil seguinte, e do que aconteceu antes do aviso suportas no máximo 50 euros. Cada hora sem ligar é o único prejuízo verdadeiramente teu.

O burlão de agosto conta com o mesmo do resto do ano, a tua pressa, só que em versão férias: o cansaço da viagem, o balcão desconhecido, a fila do check-in. Estes dez gestos não estragam o descanso, compram-no. Faz metade antes de fechar a mala, e as férias ficam a dever-te apenas boas memórias.

Para ir mais longe: o pedido de vigilância da tua casa faz-se em veraoseguro.mai.gov.pt, e o Centro Nacional de Cibersegurança tem guias práticos para cidadãos.

Fontes: Polícia Judiciária, GNR (via RTP), Action Fraud UK (via ATOL), PSP, CNCS e Airbnb.

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