‹ ARQUIVO NB-L052 · .log · 2026·06

Fecharam 10 sites que despiam mulheres com um clique. A procura mudou-se para a mochila da escola.

Fecharam 10 sites que despiam mulheres com um clique. A procura mudou-se para a mochila da escola.
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Em seis meses, um punhado de sites que «despem» mulheres a partir de uma fotografia recebeu mais de 200 milhões de visitas. Não eram fotografias roubadas: eram imagens banais, tiradas das redes sociais, a que uma inteligência artificial acrescentou a nudez que nunca existiu.

A boa notícia é que dez desses sites estão hoje offline, depois de um processo do Procurador da Cidade de São Francisco. A má notícia é o número que ninguém celebra: duzentos milhões de visitas em meio ano dizem que o problema nunca foi a oferta, foi a procura. E a procura não se desliga com uma sentença.

Fechar o site é fácil. Travar a procura é que não.

Em agosto de 2024, David Chiu, Procurador da Cidade de São Francisco, processou os operadores de dezasseis sites de «nudify», o nome que se dá às ferramentas que «despem» uma pessoa numa imagem, na primeira ação do género. Desde então, dez desses sites ficaram inacessíveis na Califórnia, e um deles, a Briver, fechou por acordo, com uma injunção permanente que o proíbe de voltar a operar e cem mil dólares de multa.

Do lado da lei, os Estados Unidos aprovaram em maio de 2025 o Take It Down Act, que torna crime federal publicar imagens íntimas não consentidas, incluindo as fabricadas por IA, os chamados «deepfakes», montagens digitais que parecem reais. A lei obriga ainda as plataformas a remover o conteúdo em 48 horas, e a primeira condenação chegou em abril de 2026. É progresso a sério, mas é progresso sobre a fábrica, não sobre o que ela já produziu.

Em Portugal, já entrou pela escola. A lei só entra em 2027.

Em novembro de 2025, a Polícia Judiciária veio a público dizer que estes casos começaram a aparecer nas escolas portuguesas. O padrão repete-se: um aluno tira a foto de uma colega do Instagram, passa-a por uma app que lhe «remove a roupa» e faz o resultado circular no WhatsApp da turma. E a própria PJ sublinhou o mais perturbador de tudo: muitos destes jovens acham que é «uma brincadeira». Não é, e é precisamente esse mal-entendido que deixa o problema crescer sem ninguém dar por ele.

Pior, em Portugal não existe hoje sequer um crime específico para isto. A difusão de uma imagem sexual falsa só fica expressamente criminalizada quando o país transpuser a diretiva europeia que o obriga, a Diretiva 2024/1385, cujo prazo vai até junho de 2027. Até lá, quem investiga encaixa cada caso nas figuras legais que tem à mão.

É aqui que a imagem do «site fechado» engana. Uma destas montagens não vive no servidor que se desliga, vive no telemóvel de quem a recebeu, no grupo onde foi reenviada e na pasta de quem a guardou. Fechar o site é apreender a fábrica depois de o produto já estar distribuído, e o produto, neste caso, são pessoas: cerca de nove em cada dez vítimas são mulheres e raparigas, e muitas das vítimas e dos agressores são crianças de catorze e quinze anos.

Como proteges quem é teu.

Não há um botão que apague isto do mundo, mas há coisas concretas que reduzem o estrago:

  • Fala com os mais novos antes de haver um caso. Criar ou reenviar uma imagem destas de um colega é violência e tem consequências legais, e quem trata isto como piada precisa de ouvir, de alguém próximo, que não é.
  • Reduz a exposição pública. Perfis fechados e contenção com as fotografias de menores tiram matéria-prima a quem anda à procura de alvos.
  • Não apagues a prova. Se foste vítima, guarda capturas de ecrã, ligações, datas e o registo de quem enviou, porque é essa cadeia que sustenta a queixa.
  • Usa as ferramentas de remoção. O StopNCII.org (para adultos) e o Take It Down do NCMEC (para menores) ajudam a retirar imagens íntimas das grandes plataformas, e as redes têm canais próprios de denúncia.
  • Denuncia. Em Portugal, à Polícia Judiciária e à Linha Internet Segura, porque o silêncio é o único aliado garantido do agressor.

A pergunta certa não é quantos sites vão fechar para a semana. É quando deixamos de tratar despir uma colega com um clique como uma travessura e passamos a tratá-lo como aquilo que é: uma agressão que se comete com um telemóvel e fica para sempre.

Fonte: Malwarebytes (Lock and Code).

#StaySafe
🙏🖖

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