Em junho deste ano, investigadores da Cybernews encontraram uma base de dados aberta na internet com 24 mil milhões de registos roubados, 8,3 terabytes. A maior parte tinha saído de infostealers, programas que se instalam sem dar nas vistas e copiam tudo o que escreves, enquanto o dono do computador lê as notícias. É provável que já lá estejas, e não fizeste nada de errado para isso acontecer.
Foi por estes dias que começou a circular no X um guia assinado por uma conta Anonymous: «Como desaparecer da internet em sete dias». Teve quase cinquenta mil visualizações, e tem uma virtude rara: é honesto no fim. Diz, na última linha, que não vais desaparecer, vais só ficar difícil de prever. É a frase mais importante do texto e está enterrada lá no fundo. Trá-la para cima e muda o que andas a tentar fazer. Não desapareces, ninguém desaparece. Tornas-te caro de mapear. Os sete dias não te apagam do mundo, encolhem e desfocam a cópia de ti que anda por aí. Valem por isso, não por magia.
Os sete dias, um a um
- O inventário. Abre todas as contas que tens, o email, as redes, as lojas, as apps que instalaste e esqueceste, e escreve a lista num sítio só. Procura na caixa de correio por «bem-vindo» e «confirma o teu registo» para desencantar as contas mortas. Vai ser uma lista maior do que esperas, e esse é o ponto: cada conta é uma porta aberta e um vendedor dos teus dados, e só a podes fechar depois de a veres.
- O email novo. Cria um endereço cifrado, com o Proton Mail, na Suíça, ou o Tutanota, hoje Tuta, na Alemanha, ambos com cifra de acesso-zero, onde nem o fornecedor lê o que lá está. Não importes os contactos nem o ligues ao teu nome verdadeiro, e usa-o como endereço de recuperação das contas que contam: o banco, o email principal, as redes. O Gmail antigo não morre, vira caixote do spam enquanto o novo passa a ser a tua base.
- O telemóvel. É o teu informador mais aplicado, por isso tira-lhe os microfones. Corta a localização a tudo o que não seja um mapa, troca «sempre» por «enquanto uso», corta o microfone a tudo o que não seja chamada, e apaga as apps que não abres há um mês. No iPhone, liga a Transparência no Rastreio para travar o rastreio entre apps; no Android, instala o Exodus Privacy e vê, app a app, quantos rastreadores cada uma traz escondidos.
- O browser. Larga o Chrome, que é a máquina mais afinada do mundo para saber o que pesquisas, e passa para o Brave ou o Firefox, com o DuckDuckGo na busca e o uBlock Origin a bloquear rastreadores e anúncios. Podes manter o Chrome só para as duas ou três coisas que mesmo o exijam, e deixar de o usar para tudo o resto.
- As mensagens. Leva as conversas que importam para o Signal, com versão para Android, iPhone e computador na mesma página, que cifra o conteúdo de ponta a ponta e nem o consegue entregar a um tribunal, porque não o guarda nos servidores. O WhatsApp também cifra a mensagem, mas regista a moldura à volta dela, com quem falas, quando e quantas vezes, e esse metadado vale quase tanto como o que escreveste. Não precisas de apagar o WhatsApp, precisas de parar de ter ali as conversas sérias.
- Os data brokers. Aqui está o dia que toda a gente salta. Os data brokers são empresas que compram e vendem a tua morada, o número, o escalão de rendimento e os donativos, e quase todas te retiram se pedires, uma de cada vez. Fá-lo à mão nas maiores, como a Whitepages, o Spokeo e o BeenVerified, ou paga a um serviço como o DeleteMe ou o Incogni, por volta de cem dólares por ano, que faz a caça por ti. É o passo mais maçador e recorrente, porque eles voltam a publicar-te, e é o único que apaga o teu eu público.
- A nova postura. Os seis dias eram sistemas, este és tu. Usa as redes como uma praça e não como um diário: publica a versão de ti que mostrarias a um estranho no comboio, e tranca ou apaga o que ficou para trás. Usa um nome diferente onde não precisas do verdadeiro, e uma foto e uma bio diferentes em cada plataforma, para custar a juntar as peças. Sê um esboço, não um retrato.
Mudar de software não é mudar de rasto
Os sete dias dividem-se em dois gestos. A maioria fecha torneiras, protege o que sai de ti a partir de amanhã. Um trata da água que já está no chão, e é o que toda a gente salta. Trocas o email e o browser e sentes-te mais seguro, mas a tua morada continua impressa em mil cadernos que já foram fotocopiados. Quem investiga incidentes conhece o engano: mudar de ferramenta não apaga o rasto antigo. E não há marca que te salve sozinha. O guia recomenda o DuckDuckGo, e logo nos comentários alguém lembrou que nem isso é absoluto. A lição não é desconfiar de tudo, é perceber que privacidade não se compra uma vez, pratica-se. É o hábito de separar o que és, para que ninguém junte as peças sem esforço.
Não vais desaparecer, e quem to prometer está a vender-te a mesma fantasia com que a indústria da vigilância te prende. O que estes sete dias te dão é mais modesto e mais poderoso: a cópia de ti que eles guardam começa a apodrecer. Mudas de hábitos, paras de alimentar o retrato, e ao fim de uns meses a versão tua que está nas bases de dados deixa de bater certo com a pessoa real. Ficas caro de seguir e difícil de prever. Sempre foi essa a coisa mais livre que uma pessoa pode ser.
Fontes: Cybernews (o número dos 24 mil milhões) e o guia «How to Disappear From the Internet in 7 Days», publicado no X por uma conta Anonymous.
#StaySafe
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